#pracegover audiodescrição resumida: ilustração de fundo preto. Por toda ilustração gotas azuis caem na vertical. No centro há uma bicicleta azul. No centro da ilustração, um retângulo branco com o escrito "gotas do tempo".
BLOG

Gotas do Tempo

Para cuidar de uma flor é necessário dar a certa quantidade de luz, a certa quantidade de atenção, e o mais importante, a certa quantidade de água. Miguel era florista e sabia dessas regras desde criança. Seu pai havia ensinado-lhe todas, e, juntos, cuidavam das flores da estufa da casa e ajeitavam as que iriam para a cestinha da bicicleta, para a venda — aquelas que acabariam num lindo vaso ou nas mãos de uma bela dama. 

Depois da morte de seu pai, Miguel continuou o trabalho de pedalar, levando a beleza das flores para onde quer que fosse. Na cesta continham rosas, orquídeas, lírios, cravos e margaridas. Era uma cesta repleta de cores.

Os tempos, porém, começaram a mudar. Quase ninguém mais presenteava as pessoas amadas com flores, começaram a surgir mimos mais tecnológicos, e até outros tipos de lembrança, e as flores ficaram estagnadas como o presente dos românticos. Além de os negócios estarem indo de mal a pior, a mãe de Miguel adoeceu, morrendo um ano depois do diagnóstico de câncer.

Miguel ficou perdido, não tinha outra habilidade, o melhor que sabia fazer era cuidar de flores, mas elas não estavam mais o ajudando financeiramente.

Acordando, certo dia, para ir buscar as flores na estufa e arrumá-las na cesta, Miguel notou que seus cabelos estavam molhados e seu pijama também. Uma nuvem chuvosa, escura, carregada, sobrevoava a cama de Miguel. Ele se assustou e saiu correndo, chegando até a cozinha, onde parou ao lado da mesa.

A nuvem continuava lá.

Miguel começou a andar de um lado para o outro, olhando para cima, vendo a nuvem que o seguia para onde quer que ele fosse. Ele subiu na mesa para tentar alcançá-la, mas ela voou para cima, mantendo a mesma distância dele. Ele não sabia o que fazer, o que pensar. Pegou uma vassoura e tentou bater na nuvem. Ela começou a chover forte. Ela chovia nele e em tudo que estava em um raio de um metro.

Miguel pegou a sua capa de chuva e pôs-se a pedalar, sem nenhuma flor na cestinha. Ele foi ao médico. Entrando na recepção, avisou a recepcionista e esperou ser chamado. A recepcionista olhava para ele assustada, e ele olhava para ela com um olhar impaciente.

Miguel!

Molhando todo o consultório, Miguel explicou o que estava acontecendo; o médico, porém, disse que não podia ajudar. Nunca havia trabalhado com isso antes e, não, infelizmente não poderia indicar alguém para tratá-lo.

Depois da conversa com o doutor, a chuva de Miguel ficou mais forte. Ele voltou para casa, colocou algumas flores na cestinha e saiu para trabalhar. Logo, logo isso some… Andou pelas ruas onde sempre costumava vender, hoje era um dia bonito de verão, as pessoas deveriam estar felizes e com vontade de colocar um pouco de beleza natural em suas casas.

Um cliente se aproximou da bicicleta. Olhou as flores. 

Gostou de alguma, senhor? Ele olhava, olhava, mas foi embora agradecendo. Miguel continuou sua calma pedalada em busca de clientes, mas quando olhava para a cesta, via que as flores começavam a sofrer com o tanto de água que caia em cima delas. Neste dia Miguel vendeu uma única rosa e teve de jogar o resto das flores na cesta de lixo.

E a situação continuou assim: chuva, chuva, flores estragando, no máximo duas vendas por dia. Miguel quase não estava mais conseguindo manter-se financeiramente, suas economias estavam acabando. Com essa chuva, ele teve de comprar mais roupas adequadas, o que custou bem caro. Ele pedalava sem saber mais o porquê. 

Mas, em uma tarde, ele redescobriu.

Realizando a sua única venda naquela quinta-feira, Miguel estava parado na esquina entre duas ruas movimentadas do bairro. Ali havia acabado de abrir um café, desses em que há mesinhas no lado de fora também, um ambiente aconchegante. Olhando para o novo estabelecimento ele a viu. A balconista. Uau. Cabelos castanhos longos, presos em um rabo de cavalo, olhos também castanhos, brilhantes. E um sorriso que iluminava toda aquela região. Ele se sentiu feliz por aquele momento, só de olhar para ela. E a chuva parou por alguns segundos. 

Ele notou a parada brusca, olhou para a nuvem acima dele e a chuva voltou a cair, mas, dessa vez, mais branda, quase uma garoa. Miguel terminou o seu dia de trabalho e voltou para casa pensando nela.

Desde aquele dia, aquela esquina era parada obrigatória para a bicicleta de Miguel. E a chuva, a cada dia ficava mais fraca, e as flores, a cada dia sofriam menos com a intempérie. As vendas começaram a aumentar, de duas flores por dia, em uma semana passaram para cinco, em duas, para nove. Miguel estava esperando o dia que iria tomar coragem para ir falar com a moça. Sabia que não podia chegar todo molhado, com capa e botas de chuva, desse modo ela nunca iria gostar dele. Ele se aventurou, então, a comprar roupas não especiais para chuva. E começou a vesti-las para ir trabalhar. Mesmo voltando ensopado todos os dias, por conta da garoa incessante, se sentia muito melhor sem ter aquelas pesadas roupas lhe incomodando.

E a nuvem começou a clarear, passou a chover apenas em certos momentos do dia, e o raio que ela alcançava diminuiu também, estando agora apenas em cima de Miguel, não molhando as flores na cestinha, que estavam mais belas do que nunca e atraíam vários clientes. 

Um dia, parado em frente ao café, Miguel olhou para a moça de cabelos castanhos e ela sorriu e acenou para ele. Ele acenou de volta. A nuvem ficou totalmente branca, sem chuva nenhuma, só tampava a luz e o calor do sol, esse calor que Miguel não sentia há meses.

Vendo que a nuvem estava quase se dissipando, Miguel tomou coragem para falar com ela, finalmente. Ele pedalou depressa até em casa, tomou banho, colocou uma roupa seca e limpa e voltou para o café. Chegou a hora. A moça estava limpando uma das mesas externas. Coragem, vamos lá. Miguel escolheu a rosa branca mais bonita que havia na cesta. As rosas brancas são flores extremamente sensíveis, nenhuma continuava viva em sua cesta há semanas, mas esta não, esta estava deslumbrante. Ele se aproximou com certa timidez da dama, que sorriu com a sua aproximação. Miguel ofereceu a rosa para ela. Ela abriu um grande sorriso, aceitou a flor e a cheirou. Assim que ela olhou nos olhos de Miguel, com a linda rosa em sua mão, a nuvem se dissipou e o sol se revelou novamente para ele.

4 comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.