Simbologias Literárias: O Corvo
Simbologias são a principal fonte de abstração que um artista pode usufruir em sua criação. Não por acaso, há alguns símbolos que se repetem de forma tão incessante na literatura, artes visuais e no cinema que nosso subconsciente já o conecta a um significado automaticamente. Porém, para além deste primeiro significado, o tempo atribui outras características a tais símbolos, afinal, o tempo é rei e, com sua passagem, os símbolos ganham outras formas.
Durante meus estudos de literatura norte-americana, Edgar Allan Poe foi protagonista de um módulo inteiro. Não poderia ser diferente, o pai do terror estadunidense mereceria até mesmo um semestre inteiro de estudo sobre suas obras — e como elas estão tão interligadas com sua vida. O curioso é que eu nunca havia lido sua obra mais famosa, O Corvo, apenas havia me debruçado em Histórias Extraordinárias, anos antes — e gostado tanto que, um dos contos, O Gato Preto, me inspirou a escrever o meu conto Estrela da Manhã, que ganhou menção honrosa no concurso O Legado de Edgar Allan Poe.
Com a leitura de O Corvo originalmente em inglês e, depois, algumas de suas traduções, já que faz parte do estudo ler diversas versões de um mesmo texto, lembrei-me de um livro que me tocou muito no último ano, Luto Sem Medo, de Max Porter. Sem dúvidas, Porter bebeu muito de Poe para criar sua própria literatura, o que é louvável, já que, usando os mesmos símbolos, cada um contou sua história com o luto.
Coincidentemente (será?), ambas as obras retratam o luto pela amada, ambas são do ponto de vista de um recém-viúvo — e também escrita por viúvos. Mas onde entra a simbologia aí? E sua atualização?
Em O Corvo, de Poe, a figura da ave está muito ligada a um sentimento de autodestruição, de podridão e abandono. Aqui, na América do Sul, a figura do corvo pode ser um pouco distante para nós, não é um pássaro típico de nossa fauna (apesar de parentes, como as gralhas, serem muito comuns), então eu traduziria o corvo de Poe para o nosso urubu. O que, no Século XIX, no auge do Romantismo, em que a idealização da morte e o culto ao individualismo era tão forte, faz sentido que Poe representou a morte de seus sentimentos — que acompanhava a ida de sua amada —, com um animal que lembrasse a solidão e a ruína.
Anos depois, o símbolo do corvo, que aparece em Luto sem Medo, de Porter, vem mais como um amigo, um conselheiro de luto, e menos como um sinal de mau agouro. Interessante, não? Ver como um urubu do Século XIX, em nosso tempo, tornou-se um sabiá.
Apesar disso, a simbologia do corvo permaneceu com os anos e, se usada em outro contexto, pode gerar a dúvida: o que de morte estamos falando aqui?
Para além das aves, outros animais, plantas e contextos aparecem em obras como símbolos amplamente enraizados no nosso subconsciente, como a rosa, usada como símbolo de pureza em A Bela e Fera, em O Pequeno Príncipe e também em Mata Doce, de Luciany Aparecida. A serpente, imortalizada na Bíblia como símbolo de tentação e traição, aparecendo com esse mesmo simbolismo em Harry Potter, e tendo, com o passar dos anos, uma outra simbologia somada: a da regeneração, a da troca de pele, como em Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche.
Enquanto criadores de imagens mentais, autores devem entender que os símbolos são instrumentos poderosos, capazes de sintetizar mundos inteiros. Se você gostaria de se aprofundar nessa temática, uma leitura que eu indico é O Homem e Seus Símbolos, de Carl G. Jung (dica: compre o livro físico, vale muito a pena pelas ilustrações e fotos que contém nele).
Você costuma usar simbologias nas suas criações literárias?


