Foto da revista Glamour aberta com uma xícara de café em cima. À frente da foto, nome da coluna em estilo colagem: retrô com café janeiro de 2026.
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Passado, bem-vindo ao presente! | Retrô com Café Janeiro/26

Há coisas que nos impactam e alteram nossa percepção sobre o mundo e sobre nós mesmos: uma leitura que muda a forma como vivemos nossa rotina; um vídeo que assistimos e nos conecta com algo que estava adormecido dentro de nós.

A ideia dessa coluna no blog, Retrô com Café, é fazer a retrospectiva dessas coisas que me impactaram todo mês, que mudaram minha visão, minha rotina e que eu quero muito compartilhar com todo mundo, porque sei que podem mudar a vida de muita gente, no micro e no macro.

Boas-vindas ao Retrô com Café de Janeiro de 2026!

Qual foi a última revista física que você leu?

Quando eu era criança e adolescente, eu lia revistas adoidado: Witch; Capricho; Atrevidinha; Winx; Recreio; era uma coleção imensa de capas e quizes e pôsters que formava uma pilha dentro do meu armário. Um dia, eu parei. A vida aconteceu e eu não passava mais na banca aos domingos com a minha mãe para comprar a revista da semana.

Até que, para fazer o visionboard de 2026 para o Sentadas na Janela, eu quis comprar uma revista para recortar kkkk Vejam: para recortar e não para ler, de tanto que eu estava afastada do mundo revisteiro.

Passei em uma banca de jornais perto da minha casa, pedi o estilo de revista que eu julgava ser melhor para recortar e segui meu caminho para lecionar teatro lá na Zona Sul. Ou seja, um longo caminho (eu moro na Zona Leste). Sem nada para fazer nas 2h de transporte público, resolvi abrir a revista e ver o que ela me oferecia. E ela me ofereceu muito.

Primeiro, é claro, nostalgia. Para alguém que consumia muitas revistas, ter aberto e lido a página de editorial foi uma bomba nostálgica incrível. Segundo, entregou referências estéticas diferentes das que a gente está bitolado de ver na internet, comandada por algoritmos, impactando meu senso estético imediatamente. Terceiro, me entregou matérias que não estão disponíveis online, mas são maravilhosas e queria que todo mundo tivesse acesso (vou falar de uma delas no próximo tópico, inclusive).

 

Você, que tinha o hábito de comprar e ler revistas quando mais jovem, continuou com isso ou viu esse hábito se esvaindo com o tempo também? Te desafio a ir em uma banca de jornais e escolher uma edição do mês de fevereiro! Aliás, eu gostei tanto da experiência que vou assinar a “Glamour”, acredita? Totalmente impactada.

Será que as trends das redes sociais têm moldado comportamentos que não gostamos?

Nessa revista que eu comprei, a “Glamour” edição primavera/verão 2025 (nº155), há uma matéria chamada “Apenas uma garota?”, assinada pela Mariana Gonzalez. Seu subtítulo é:

 

Embalados pelo hit “Just a Girl“, vídeos no TikTok retomam a ultrafeminilidade e colocam o universo das garotas no centro da pauta. Estaríamos nós diante da valorização de algo antes considerado fútil ou apenas reforçando padrões conservadores de gênero?

Se você não se impactou com o subtítulo, ou você não conhece a trend Just a Girl, e aí é só clicar aqui para conhecer, ou você não está muito a fim de refletir sobre a responsabilidade das redes sociais moldando valores da sociedade (e tudo bem, alguma hora você volta).

A matéria nos faz pensar sobre os dois lados da trend: o lado da sororidade, de as mulheres conseguirem se indentificar uma com as outras, formar o nosso grupinho, pessoas que gostam de fazer as mesmas coisas (ir tomar um café superfaturado, experimentar roupinhas no shopping e não comprar nenhuma, colecionar objetos dos nossos ídolos, etc); e o outro lado, o lado “do mal”, que reitera uma visão machista sobre o que é ser mulher, ser uma garota (vídeos em que a mulher não sabe fazer uma baliza, não consegue fazer contas simples — a não ser que esteja ligada a produtos de beleza, entre outros).

 

Vídeos, que podem ser inocentes, por exemplo, uma mulher mostrando um arsenal de produtos rosa, confeccionados especialmente para você que é “apenas uma garota”, podem estar reiterando um posicionamento conservador muito simbólico e binário: o de que existe coisa de homem e coisa de mulher. E nós já sabemos quais as consequências que esse pensamento pode levar, já que o movimento feminista está lutando para dar a volta por cima há anos e anos — e ainda não conseguimos. São passinhos para trás em um tabuleiro em que a nossa peça nunca esteve nem mesmo empatada com a outra.

É uma trend ótima para quem a entende como maneira de criar um senso de comunidade, para fortalecer a “girlhood” e exaltar o orgulho que sentimos em sermos mulheres, mas vamos combinar? Essa é uma bolha pequena dentro de uma internet com diversos sinais de alerta. A nova geração pode estar pegando a simbologia errada e a misoginia (ódio contra as mulheres) pode estar nascendo em meninos adolescentes só porque é fácil chamar uma mulher de burra, já que “elas não sabem estacionar um carro”.

 

Nossos posts têm poder e alcance que, às vezes, não conseguimos projetar. Não saí da leitura da matéria falando “nunca vou participar da trend”, até porque adoro ver as garoutas tomando seus matchas com lookinhos divos ♥ Mas fui provocada a pensar nas trends para além das redes, afinal, trend é social também.

 

Quando uma leitura despretensiosa se torna o primeiro 10/10 do ano

Em 2026, resolvi classificar minhas leituras com notas de 0 a 10. Percebi que o esquema de 5 estrelas não estava sendo suficiente para mim e nem para as obras que eu estava lendo, já que têm algumas que merecem mais do que 5 e outras que são injustiçadas com um 2, mas não tão boas quanto um 3. E a minha primeira leitura 10/10 do ano quase não foi lida, acredita?

Estou falando de “Se deus me chamar não vou“, da Mariana Salomão Carrara, que foi o 4º livro que li nesse 2026. Ele está disponível no Kindle Unlimited, e uma das minhas metas do ano é todo mês ler pelo menos um livro no K.U. — para fazer valer minha assinatura, né? kkkk — e, olhando os títulos que estavam ali esperando por mim, o segundo livro publicado por Mariana Salomão Carrara chamou a atenção e ganhou a corrida entre os outros.

 

A narradora de “Se deus me chamar não vou” é uma menina de 11 anos, o que torna toda a narrativa extremamente empática e espirituosa, pois passamos a ver o mundo como uma criança novamente. Essa protagonista é vista (e se vê) como uma garota gorda que nunca será amada e apreciada, e esse sentimento só aumenta quando a sua mãe entra em um trisal e o pensamento de “ela tem dois e eu nunca terei nenhum” surge na mente dela. Além disso, ela trabalha com os pais em uma loja de produtos para idosos, que ela carinhosamente chama de “Loja de Velhos”, mas esse constante contato com a 3ª idade faz com que ela veja a vida como algo muito célere, mesmo tendo apenas 11 anos.

 

É muito curioso perceber que não nos afastamos tanto dos nossos sentimentos e pensamentos infantis mesmo quando já somos lidos como adultos. Muito do que é colocado ali são reflexões que temos no dia a dia, mas que nos podamos de expressar. A autora dá alguns deslizes, às vezes, colocando frases um pouco adultas demais na boca daquela pré-adolescente, mas não é nada discrepante, dá para ignorar e seguir com a magia. Ri em muitas passagens, fiquei com lágrimas nos olhos em outras e reencontrei a mini Natália durante a leitura.

 

Artista, articulada, arteira e, agora, artesã

Alias, mini Natália que anda bem viva por aqui. Desde o ano passado, voltei a bordar. Eu bordava e costurava muito quando pequena, porque passava as tardes com a minha vó e ela era costureira, trabalhou com isso a vida todinha, e até hoje consigo ouvir o tec tec tec da máquina de costura dela embalando minhas atividades.

Na época, eu brincava de bordar, saíam uns Franksteins de bordado, mas eu era criança, então estava tudo lindo. Hoje me cobro por um resultado mais estético, mas eu venho conseguido.

Bordei mais de 30 bastidores com frases e desenhos nos últimos 10 meses, e vou continuar bordando (aliás, vou começar a aceitar encomendas, caso alguém queira um em casa). Esse da foto está no meu banheiro, uma clássica cena de Crepúsculo sobre aromas kkkkk

 

Porém, em 2026, comecei uma arte nova (mais uma): o crochê. Eu já tinha tentado antes, em 2018, por aí, mas desisti tão rápido quanto comecei, me parecia muito trabalhoso na época. Voltei ao crochê com o intuito de confeccionar acessórios para compor os meus looks e já estou terminando minha primeira peça com a ajuda da internet, é claro. Por isso, nessa Retrô, vou deixar indicado o vídeo que está me ajudando com a receita de uma bandana de crochê simples para iniciantes. Quem sabe você também não tenta crochetar um pouquinho?

 

 

A arte cura!

Começamos a temporada de maratonar os filmes indicados ao Oscar! Esse ano eu estou adiantada, antes mesmo de sair a lista de indicados, eu já tinha assistido a quatro filmes — cinéfilaaaaaa!

 

Na última sexta-feira, fui ao cinema assistir a “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” e deixei alguns litros de lágrimas por lá. História emocionante da vida privada de Shakespeare, de como sua esposa, Agnes, precisou lidar com filhos e percalços praticamente sozinha para que ele seguisse sua carreira na cidade grande, com atuação impecável de Jessie Buckley, que, para mim, já ganhou a estatueta de melhor atriz, e direção belíssima de Chloé Zhao, que gostaria muito que ganhasse o prêmio de melhor direção, mas duvido que vão entregar para a única mulher concorrendo — rs.

 

Mas não vou me ater aqui às questões técnicas do filme, não é uma crítica cinematográfica, quero falar sobre a mensagem dele, uma mensagem que eu estou repetindo continuamente há mais de um ano, porque ela é a base do meu trabalho mais recente, “Sete Centímetros“: a arte tem o poder de reconstruir aquilo que se quebrou.

Sim, estamos falando de luto. Não darei spoilers, mas a família de William Shakespeare precisa se recuperar de uma perda, e como o maior dramaturgo da história da humanidade — na minha humilde opinião — lida com o sentimento de impotência, de ausência e de miséria que o luto traz? Ele cria. Ele faz arte. Ele escreve “Hamlet“.

 

Uau, fiquei arrepiada só de escrever relembrando o filme.

E a cura que alcançou o autor chega também à sua esposa, que assiste à peça, que vive a experiência catártica que é estar em um teatro e sentir tudo que o texto pode nos fazer sentir. “Hamnet” é mais do que um filme sobre Shakespeare, é uma homenagem ao teatro como uma arte autêntica e uma homenagem à ideia de que a arte cura. Assista!

Eu sou mesmo exagerado!

E para fechar nossa Retrô com Café de Janeiro, coloca aí uma playlist de Cazuza para tocar, porque você precisa entrar no clima do que é ser Cazuza! Quando meu irmão veio me visitar, no meio do mês, nós tiramos uma tarde para assistir ao documentário “Cazuza Além da Música“, disponível na Globoplay, em 4 episódios de 30 minutos.

 

Eu já adorava o Cazuza, pelas músicas e também pela história que conheci através do filme-biografia de 2004, mas agora, depois de assistir ao documentário, eu virei fã de Cazuza. Normalmente eu viro fã do cérebro das pessoas, é engraçado. Se eu vejo que a pessoa tem um cérebro bonito e trabalhado, eu fico admirada, e esse foi o caso com Cazuza. O cara tinha tanto conhecimento político e social, além, é claro, de saber criar poesia como ninguém, que ele transbordava tudo isso em cada frase. Ele conversava em forma de poesia, como pode?

Todos os artistas da época dele falam que todo mundo que conhecia Caju se apaixonava, e eu acho que se eu tivesse lá em Ipanema nos anos 80, eu teria me apaixonado também. Além de que sua vida é um exemplo, ele provou que é possível continuar após o diagnóstico de HIV — hoje mais do que nunca, mas, na época, os remédios ainda não existiam e ele se manteve no palco. Estoure a pipoca e prepare para se emocionar com a música brasileira!


Natália Marques é escritora, roteirista e comunicadora há mais de 9 anos, pós-graduada em Teoria e Crítica Literária e em Revisão de Textos, formada em Comunicação Social com Habilitação em Cinema (FAAP). Hoje se dedica à escrita e à prestação de serviços literários para pessoas que escrevem: leitura crítica, preparação de texto, revisão, consultoria e mentoria, além da roteirização de filmes, podcasts e vídeos.

Tem três romances publicados, “Os ares de Luisa” e “Matérias do Coração” e “Sete Centímetros”, finalista do Prêmio Carolina Maria de Jesus. Também é criadora de conteúdo e você pode acompanhá-la nas redes YouTube, Instagram, TikTok e Pinterest pelo usuário @cafecomnat e também pelo site natmarques.com.

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